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Recall atrasado ainda vale? De quem é a obrigação e o que muda para o dono

Por Tiago Ramlow · Publicado em · Atualizado em

Mecânico agachado examina um motor desmontado apoiado no chão, com o carro estacionado ao fundo

A resposta curta é sim: o recall continua valendo, e quem carrega a obrigação principal é o fabricante, que precisa avisar, convocar e consertar. É o que manda a lei do consumidor, a Lei 8.078/1990, no artigo 10, para o fornecedor que descobre um risco depois de o produto já estar nas ruas.

A resposta completa importa mais, porque desde 2021 deixar a carta na gaveta passou a ter efeito prático sobre o próprio dono, além do risco que o defeito já representa para quem está dentro do carro e para quem cruza com ele.

Sem custo e sem data para acabar

Peça e mão de obra saem de graça para o proprietário. Se alguém tentar embutir no conserto uma cobrança qualquer, com nome de taxa de marcação, de avaliação ou de visita, o pedido é indevido e pode ser recusado na hora.

O direito também não caduca. Quem compra o carro de terceira ou de quarta mão herda a campanha como se fosse o primeiro dono, porque o reparo acompanha o automóvel, pouco importando quem o tirou zero da loja.

O prazo que às vezes aparece impresso na carta tem função logística, uma forma de a montadora distribuir peças e horários entre as oficinas. Passar dele não apaga o direito ao conserto, que segue disponível pelo tempo que o carro rodar.

A mudança que entrou em vigor em 2021

Com a Lei 14.071/2020, em vigor desde abril de 2021, o artigo 131 do Código de Trânsito ganhou dois parágrafos novos. Eles dizem que, se o dono deixar a convocação sem atendimento por mais de doze meses depois de avisado, a pendência vai parar no documento anual do veículo.

A partir desse registro, renovar o documento passa a exigir prova de que o conserto aconteceu. Pouco depois, a Lei 14.229/2021 restringiu a cobrança às campanhas abertas desde outubro de 2019, deixando as convocações mais velhas fora desse efeito.

Na prática, o recall continua sendo direito do consumidor, mas agora também pode travar o documento. E a regra não mede gravidade: um defeito simples de acabamento e uma falha no sistema de freio caem no mesmo critério.

Como saber se há campanha aberta

O ponto de partida é o número do chassi, uma sequência de dezessete letras e algarismos repetida no documento do carro, numa gravação no bloco do motor e num adesivo colado no batente da porta do motorista. De posse desse código, a pesquisa sai pelo site da montadora ou por um serviço público de atendimento ao consumidor, sem pagar nada.

Ficar só no modelo e no ano de fabricação não basta. As campanhas costumam alcançar faixas específicas de número de série, e dois carros iguais, da mesma cor e do mesmo ano, podem estar em situações diferentes.

Por que tanta convocação fica para trás

Costumam ser três os culpados. A correspondência é tomada por mala direta e descartada sem abrir; o endereço do proprietário nunca foi atualizado depois da revenda, e o aviso bate na casa errada; ou o defeito jamais se manifestou e, por isso, ninguém sente pressa.

O terceiro é o mais perigoso. Defeito latente aparece na situação-limite: o pré-tensionador do cinto, por exemplo, só é chamado a agir numa freada de emergência, e nesse instante não adianta mais pensar em marcar horário na oficina.

Três coisas que costumam ser confundidas

Quem paga a revisão é o dono, seguindo a tabela do manual. A garantia cuida de defeito de fábrica enquanto vale o prazo combinado na compra. O recall é outra categoria: campanha de segurança, sem cobrança e sem vencimento, que continua de pé mesmo depois que a garantia acabou.

Fazer a manutenção fora da rede da marca não tira o direito ao recall. O fabricante não pode condicionar o reparo a um histórico de revisões feitas em concessionária.

Na hora de comprar um usado

A pesquisa pelo chassi toma uns dois minutos e cabe em qualquer negociação. Encontrar campanha em aberto não é motivo para desistir do carro, mas convém resolver tudo antes da próxima regularização anual; de quebra, a pendência revela como o dono anterior tratava aquilo que não aparece à primeira vista.

Para marcar o atendimento, a concessionária da marca normalmente quer ver o documento do carro e uma identificação de quem vai levá-lo até lá.

O reparo segue o chassi, e não a placa: qualquer revenda autorizada da marca, em qualquer canto do Brasil, tem de atender. Para quem mora em Iconha ou em Rio Novo do Sul, às vezes compensa comparar a agenda de uma cidade média da região com a da capital, onde a fila costuma ser mais disputada.

Com o carro de volta, arquive a ordem de serviço. Esse papel comprova o atendimento caso a baixa demore a aparecer no sistema e a pendência ainda surja na hora de regularizar o carro.

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